quarta-feira, 23 de maio de 2012

Rezar

Rezar é bacana. Acalma a alma e faz alguma coisa acontecer na sequência com a mesma naturalidade do sol. Afasta o fantasma do medo. Meio parecido com o amor, aquele abstrato absoluto que feito oração, é tão recitado. Como o amor, uma oração é um mergulho que não se dá em água rasas. Não casa com superficialidade, tem que ir um pouco mais para dentro. Às vezes, tem até que faltar o ar para a gente lembrar de rezar. Rezar que não é somente uma repetição de palavras bonitas mas também o cavocar do chão de dentro em busca do fio condutor. O fio que nos liga ao infinito que nos rega de águas frescas pela janela que nunca se fecha. Mas como?

A gente se pergunta: Para quem se reza? Por que se reza? Para quê?
Você fecha seus olhos, encolhe-se em suas entranhas e busca. Rezar é como sair para procurar. O retorno, o caminho de volta ao colo que nos embala na origem. Na essência. A gente quer o encontro. Reza-se ao incomensurável que parece maior que tudo e ao mesmo tempo parece estar ao alcance de um abrir e fechar de nossos olhos. Reza-se porque somos frágeis e porque adoramos o mistério. Rezamos pela ligação inegável que temos com o infinito na tentativa tão bonita de re-ligar. Unir nossa humanidade com a nossa divindade. Rezamos para pedir. Um pouco mais de calma, um pouco mais de sabedoria. Saúde, prosperidade, amor, perdão, rezamos pelo imaterial. Pedimos luz para nossos corações-candeeiros. E sempre somos atendidos, mesmo quando isso passa despercebido. Toda prece faz sentido.

Parece-me, no entanto, que a forma mais genuína de oração é o ‘agradecer’. Deixar desfilar pela consciência todos os benefícios dos nossos dias: O osso que quebrou e colou, o osso que não quebrou, a vizinha que baixou o som, o primeiro passo de uma recuperação, a beleza de uma nova estação. Agradecemos por não ter sido pior e pelo melhor que conseguiu acontecer. Agradecemos os sorrisos que são tantos, e agradecemos as águas do nosso pranto. A gente agradece as marcas que ficam. Na pele, nos olhos, na alma, na vida. A gente agradece as cicatrizes, nossas tatuagens, símbolos de superação. A gente agradece a miríade de sentimentos sentidos, e agradece todos os sentidos que dão sentido à vida de cada um. A gente agradece a grandiosidade da vida e as pequenezas que nos fazem tão bem. A gente reza.

E assim acontece. A cada manhã, antes de dormir, no meio de uma dor, de um desespero, na agudez de uma angústia, no êxtase de uma conquista, no agradecer de tantas graças. Em cada par de olhos, uma oração. É estranho. Bastante estranho esse mundo de estranhezas bonitas. A fé. O sal de toda prece que à quase tudo parece poder transformar, pode fazer de um muito simples abrir e fechar de olhos que acredita na vida um gesto de que salva, que transforma carência em coragem, em força, em alegria e em muito mais amor para nossas vidas. A fé é a água fresca que liberta-nos da dor . É linda, brilha e como um ser sussurrante que se esbalda dentro da gente, quer sempre nos lembrar : num abrir e fechar de olhos tudo pode mudar.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

O moço que entrega panfletos

Arrumo o meu cabelo e ele ajeita a camiseta. Existe alguma coisa entre nós: uma vontade mútua de não sermos cinzas. Van Gogh nos borrou de verde-água, e agora nós dois nos reconhecemos, apesar da multidão. Eu, a moça que sai da faculdade, e ele, o moço que entrega panfletos do dentista. É claro que eu sou muito mais do que uma moça que sai da faculdade e ele é muito mais do que um moço que entrega panfletos na rua. Mas tudo o que sei sobre ele é que uma obturação custa menos de dez reais e tudo o que ele sabe de mim é que meu sorriso é amplo e gratuito. Assim, a nossa relação gira em torno de dentes: fortes e insuperáveis. A multidão me atropela, assim como atropela e pisoteia os seus panfletos, mas eu paro por nove segundos, como se apanhasse a última edição do jornal, leio as suas manchetes odontológicas, sorrio ao meu amigo e digo... muito obrigada! A multidão o atropela, assim como atropela e pisoteia os meus amuletos, mas ele para por nove segundos, como se me entregasse os mais belos poemas camuflados, sorri e me diz... boa noite! E eu vou embora, com o nosso segredo guardado no bolso. Ali está meu cavaleiro andante e sua armadura de plástico, colorida, com os preços estampados.

P.S: o texto tem no mínimo 5 anos, certas poesias nunca mudam.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Oração


Chega o momento de analisar mais um ano que passou e os desejos para o próximo ano, e não, não é ano novo. É aniversário novo, a virada do ano só acontece quando mais um ano de vida se conclui e se reinicia. Como um relógio que contabiliza cada segundo já vivido, consegue guardar cada alegria e mágoa presenciada. O relógio que mais parece o olho que tudo vê e tudo sabe. Quando este relógio traduz-se em sua última e primeira badalada eu rezo.

Para que o ano que passou fique guardado para sempre na minha memória e eu saiba diferenciar o que deve ser guardado como aprendizado e o que deve apenas passar. Para que eu possa perdoar todas as atitudes e pessoas que me magoram e não deixe que elas me tornem uma pessoa amargurada e triste. Para que o rancor seja substituído pela capacidade de perdoar. Para que eu consiga libertar a tristeza e a dor que vivem em um lugar guardado no meu coração e nunca mais possa aprisioná-las dentro de mim. Para que eu possa perceber que nem toda a tristeza do mundo deve sobrepujar nem que seja um segundo da minha alegria.

Para que os medos que sinto não me tornem sua prisioneira. Para que minhas inseguranças não me impeçam de ir em frente e lutar pelos meus sonhos. Para que minhas vaidades não se transformem em alimento para o meu ego. Para que minha humildade seja minha maior qualidade. Para que minha vontade de ser boa não esmoreça diante dos dias em que estou descrente da humanidade. Para que eu teime em acreditar nas pessoas e na capacidade que elas têm de serem melhores. Para que minha ingenuidade seja preservada diante das minhas ideologias e capacidade de sonhar.

Para que eu ame. Para que minha capacidade de amar seja proporcional a vontade que sinto de ser feliz. Para que o amor que sinto seja ampliado a cada batida do meu coração. Para que a felicidade que esse sentimento me traz faça de mim uma pessoa melhor. Para que meu egoísmo seja substituído pela vontade de fazer o outro feliz. Para que meu ciúme não se sobreponha aos bons sentimentos que carrego. Para que eu tenha a oportunidade de dizer “eu te amo”. Para que o amor seja o alimento que me sustenta.

Para que a busca da minha vida seja a felicidade. Para que eu não esqueça quem eu sou e de onde vim. Para que não esqueça quem eu quero ser. Para que minha vontade de ser boa profissional não se torne uma ambição. Para que o dinheiro seja apenas dinheiro. Para que as pessoas que amo sejam sempre prioridade. Para que minha casa seja morada de Deus.

Para que minha capacidade de acreditar em mudanças não se acabe. Para que eu saiba valorizar os sonhos alheios. Para que eu amadureça. Para que eu saiba valorizar cada sorriso a mim direcionado. Para que eu não perca minha fé. Para possa ser uma pessoa melhor. Para que minha vontade de viver e ser feliz não acabe.

Amém.